Lígia Giatti e Cláudia Rodrigues prepararam esta apresentação como parte integrante do curso de Jogos Cooperativos na Universidade UNIMONTE, em Santos. O ponto de partida foi o livro As Paixões do Ego, de Humberto Marioti, com referências cruzadas da Biologia Cultural de Humberto Maturana e Ximena Dávila. Como o trabalho deLígia aqui na Papagallis passa por todos estes conceitos, achamos por bem compartilhar com todos estas reflexões. Puxem uma cadeira e acompanhem a narrativa. Pode parecer um pouco complexo mas logo se torna bem simples, sem perder a complexidade, é claro.
Caricatura de Humberto Maturana
18 junAzarías Muñoz produziu caricaturas em aquarela entre os anos 1993-2001, na secção Ego-Sum do diário “La Nación” do Chile.
Esta, do professor Humberto Maturana, nosso amigo, nos pareceu muito apropriada para representá-lo em sua atividade preferida: a reflexão.
A reflexão é um ato em que uma pessoa solta sua certeza
O ato da reflexão ocorre como uma mudança do espaço relacional-operacional que permite que a pessoa que reflexiona aceite ou recuse o presente em que vive e que está oculto no vivê-lo.
A mudança de espaço operacional-relacional em que vive a pessoa no ato de reflexionar ao soltar suas certezas ocorre ao vivê-lo como uma ampliação ou como uma mudança de mundo que torna-se revelador se a pessoa se pergunta se quer ou não quer o novo que agora vê.
O encontro de Humberto Maturana e Augusto Pinochet
18 outCompartilho aqui com vocês uma história narrada ontem pelo Prof. Humberto Maturana em nosso curso de Biologia Cultural. Maturana era professor universitário por ocasião do golpe militar no Chile em 1973 e aqui transcrevo a história de seu encontro com Augusto Pinochet.
“Em 1984 recebi um convite branco com letras douradas, um convite para jantar com Augsuto Pinochet na casa da moneda.
Outros professores universitários receberam um convite semelhante.
Conversamos e todos decidiram que não poderíamos recusar!
Minha mãe me disse naquela ocasião:
- Filho, comporte-se lá lembrando que você tem filhos!
Então no dia e hora lá estavam todos, presentes ao jantar.
Todos em um grande salão, cerca de 85 pessoas em sua grande maioria universitários.
Então chega Pinochet acompanhado de um homem que sabia exatamente quem era cada um de nós.
O ditador foi apresentado e apertou a mão de um por um.
Já na mesa de jantar, todos juntos, Pinochet levanta seu copo e convida:
- Vamos brindar à nossa pátria.
E todos brindam.
Louças de primeira, comida deliciosa.
Então Pinochet toma o microfone mais um vez e diz:
- Fiquem tranquilos porque hoje não haverá discursos.
Como não havia espaço de falas, decidi fazer um brinde, aproveitando o espaço de brinde criado por Pinochet.
Então me levanto, levanto meu copo e digo:
- Eu também quero brindar pela pátria.
Silêncio sepulcral! As moscas que voavam caíam congeladas!
O vinho fica imóvel nas taças.
Então eu disse:
- Todos aqui, reunidos como estamos, indica que este é um momento de sucesso em qualquer governo.
Estamos hoje aqui como homens simples do chile que somos, incluindo nosso presidente, então brindo para que possamos contribuir para gerar a autonomia intelectual e a liberdade cultural do Chile!
Silêncio absoluto! Pinochet levanta sua taça brindando, toma um gole, põe a taça sobre a mesa e aplaude quatro vêzes.
Todos repetem seus gestos também aplaudem quatro vêzes!
Um colega me cochichou:
- Que lindo!
Um outro comentou:
- Vamos terminar em Putre (onde ficava um campo de concentração).
Terminamos de comer e fomos ao salão para tomar um aperitivo.
Então eu disse.
- Preciso ir!
- Isso depende do dono da casa, me comentou um colega.
Então vamos falar com Pinochet que ele está só:
- Estimado presidente lhe apresento Humberto Maturana, distinto biólogo.
Pinochet me olhou nos olhos e disse:
- Professor, digo-lhe que compartilho de seus desejos.
- Que como dizes, seja como faças, senhor.
Ele apenas me olhou sem alterar sua expressão.
Na hora de partir mais uma vez passei por ele e Pinochet disse simplemente:
- Tchau.
- Tchau.
Respondi com um aceno de mão.
Depois recebi telefonemas de colegas dizendo:
- Gracias, você nos devolveu nossa dignidade.
E outro:
- Você pode nos ter condenado a todos!
Mas nada de mau nos aconteceu, pelo menos não nos meses que se seguiram.
Dez anos após este episódio, fui preso e levado à interrogatório pela polícia de Pinochet, mas esta é outra história!“
De olhos para o mundo!
22 setXimena y la Lupa. – Upload feito originalmente por Mac1968
Seja o que for que pensamos ser a realidade, não é! Ou melhor, é a nossa própria, única e instranferível realidade. Vemos o que vemos a partir de nossos critérios de validação.
Distinguimos o mundo identificando uma e outra coisa a partir de nossas experiências anteriores. Vemos o que vemos e só saberemos se é ilusão ou percepção no instante seguinte. Nossa próxima experiência ira confirmar ou negar nossas impressões sobre o que chamamos de realidade.
Cada qual com sua lente, enxergando o que vê, percebendo o que enxerga. E tomamos nossas decisões, realizamos nossas ações e nos organizamos em coordernações que seguem exclusivamente aquilo que ditinguimos como real.
E não falo aqui de nossas opiniões, que isto é coisa que se forma bem depois de nossa capacidade de conhecer o mundo. Digo sim que conhecemos, vivemos em cognição, daquilo que validamos como real.
Então nossos olhos vêem a luz ou a luz é o que é por ser vista em nossos olhos?
Futebol, política, religião e a realidade, não se discute
11 agoEstes dias lendo Humberto Maturana em sua Ontologia da Realidade (p.298) tive uma compreensão sobre esta afirmação. Geralmente o espaço de discussão sobre temas como estes é evitado prudentemente por pessoas que convivem em uma determinada dimensão grupal. Colegas de trabalho, amigos em um bar, companheiros de viagem, marido e mulher evitam conversar sobre política, religião e futebol porque sabem que inevitavelmente a conversa vai gerar desconforto em poucos minutos.
Isto porque normalmente discutimos acreditando que falamos de uma mesma verdade objetiva e racionalmente inegável. Nossa educação e cultura nos formaram na crença de que a realidade existe independente de nós. Só a pouco tempo é sabido que a realidade não é nada mais do que a percepção das coisas a partir de cada um de nós. Cada um conhece o que vê a partir da vida que viveu em seu sistema de crenças pessoais e íntimo. Não existe uma realidade única, compartilhada por todos.
Nem mesmo aquilo que nossa ciência comprova é a realidade única. A ciência apenas explica o mundo de um modo coerente com ela mesma. A matemática prova na matemática que dois mais dois são quatro. Mas quatro laranjas são quatro laranjas apenas quando existe alguém para perceber isto. Nada é em si mesmo. Tudo surge a partir de alguém que observa. (mais…)






