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TV Livre, delatados pela FSP em 1985

21 fev

TV Livre na Folha de São Paulo - 1985



Folheando os arquivos integralmente publicados pela Folha de São Paulo, em seu acervo digital, encontrei esta reportagem publicada na época da TV Livre que realizamos em Sorocaba.

Vale a pena citar que esta reportagem da Folha de São Paulo do dia 15 de agosto de 1985 foi publicada absolutamente sem nossa permissão. Estávamos conversando com o Mario César Carvalho que era um repórter iniciante da Folha na época e o combinado seria que o jornal não publicaria nada antes do dia 15 de agosto, que seria a data oficial de inauguração da TV Livre. Nós já estávamos transmitindo a alguns meses, experimentalmente. Tínhamos inclusive uma boa programação local produzida pelos cidadãos de Sorocaba a partir de nossas oficinas de vídeo. Mas fomos delatados pela Folha de São Paulo que não resistiu à tentação de “furar” seus concorrentes e entregou a história toda. Soubemos depois que o Mário César Carvalho foi ameaçado pelo editor do jornal para fechar a matéria e nos entregar. Na época ficamos bem chateados com o Mário por ele ter cedido pro editor mas hoje, vendo que ele ainda trabalha na Folha de São Paulo até hoje, creio que fez muito bem. Se eles tivesse mandado ele embora (e  com certeza fariam), o que seria de sua carreira, hein?

Confiram esta minha aventura de juventude nesta página do meu perfil.

Mergulhei no TEDx Amazônia

9 nov

TEDx Amazonia

O relato da experiência não substitui a experiência. Cada um vê o que vê a partir de suas próprias coerências operacionais em um fluxo de configurações íntimas. Um pouco do que vi e vivi no TEDxAmazonia registrei aqui neste post em um texto dito de mim para mim mesmo (mas você também pode ler).

O TEDx Amazonia foi uma experiência marcante. Uma imersão no contexto amazônico que trouxe para centenas de participantes a oportunidade de viver experiencialmente um contato direto com a floresta, sua gente e suas questões domésticas que, a médio prazo, terão consequencias planetárias.

Participei como palestrante do TEDx São Paulo e foi um evento refundante em minha trajetória atual, adorei as palestras em sampa mas, na Amazônia havia desta vez uma potência incomparável. Talvez pela floresta, pelo tema, pela naipe dos convidados, pelo desafio da produção e pela sensibilidade e maturidade dos organizadores.

Para mim uma emoção se abriu logo antes da abertura oficial do encontro quando entrei para acompanhar os últimos preparativos e me deparei com Antônio Nóbrega passando seu número de dança no palco.

TEDx Amazonia

Os números musicais foram espetaculares neste TEDxAm entrelaçando os blocos temáticos com danças, uma orquestra barroca e até mesmo uma entrada de música eletrônica. André Abujamra nos levou em um passeio Duvião através das nuvens da sua delicada percepção do chegar/partir. A bailarina peruana Nelida Silva trouxe os andes com suas cores e gestos ancenstrais.

TEDx Amazonia

O monge budista Lama Padma Samten entrou logo depois do Nóbrega e pediu um minuto de profundo silêncio que nos jogou na contremplação de nosso entusiasmo e energia mobilizados para aquele TEDxAm, e neste fluxo trouxe uma série de ensinamentos universais do budismo tradicional.

A carga de programação foi muito intensa. Cinquenta palestrantes com apresentações entre cinco e vinte minutos, das nove da manhã às oito da noite, com breves pausas de café e almoço. Ainda sim sobrou tempo para encontros, conexões e contato entre amigos, novos amigos e parceiros de toda a parte do Brasil e do mundo. E ainda à noite a turma se jogava numa baladinha básica no lounge da OI à beira da piscina com direito à coquetel e piscina.

Todo esse bem estar garantiu o ambiente de diversão e acolhimento tão necessário para que os quinhentos participantes pudessem desfrutar de uma experiência profundamente humanizadora, uma espaço onde pudemos compartilhar alimentos, cuidado, diversão e reflexão de modo irrestrito, um pouco como deveria ser nosso cotidiano, para muito além do atrapalho civilizatório que nos metemos e que sufoca os indivíduos neste planeta.

Durante algumas passagens não havia como respirar, tamanho impacto do contraste das apresentações. Uma perteira profissional (Suely Carvalho) apresentou com imagens a força da vida e a inutilidade estatística do parto cesareana, e logo depois uma cineasta ativista (Diana Whitten) trouxe as imagens de uma jovem espanhola ultrapassando os limites legais de seus país para exercer seu direito de fazer um aborto em alto-mar.

TEDx Amazonia

Alguns falaram sobre o cuidado, a convivência e o aprendizado, e de como tudo isto tece nosso jeito humano de sermos humanos. Bernardo Toro, educador colombiano, trouxe sua pedagogia do cuidado com uma clareza estarrecedora. Edgard Gouveia Jr. apresentou o projeto Oásis onde com nenhum dinheiro, rapidamente e de modo divertido, organiza-se uma comunidade inteira para enfrentar os impactos de um inundação ou a miséria crônicas das periferias urbanas.

TEDx Amazonia

José Roberto Fonseca apresentou o antes e depois de uma comunidade na caatinga que saiu do abandono social na seca do agreste, para uma localidade organizada, abastecida e produtora de diversos tipos de pimenta apreciadas por brasileiros e estrangeiros.

Zoe Melo, uma modelo internacional que descobriu sua vida muito além da futilidade da beleza comercial e que agora cria pontes internacionais entre jovens designers e produtores de orgânicos, e as galerias de arte e atitude de Nova York, Tóquio e Amsterdam.

TEDx Amazonia

Um jovem, João Felipe Scarpellini, que aos treze anos sonhou em mudar o mundo e consegui, dez anos depois, se destacar como uma liderança participativa em entidades sociais e empreendedoras em diversas localidades do mundo, ensinando e aprendendo a mobilização de jovens em projetos como o dele.

Mila Motomura desenhou todo o encontro em uma síntese gráfica que condensou as melhores idéias, cenas e insights que rolaram no palco.

Zach Lieberman apresentou um sistema desenvolvido em software livre que permite que tetraplégicos comandem computadores apenas com o direcionamento do olhar. Fantásticamente útil e barato!

Thiago Vinícius, (jovem sangue bom do Coperifa!) trouxe a história de sua comunidade no Jardim Maria Sampaio em São Paulo, com fotos dos fundadores e memória da organização comunitária que nos dias de hoje faz dele um banqueiro social, pilotando um projeto de moeda própria em um bairro que reinventa as relações econômicas a partir de um novo modelo econômico.

Outro Thiago, de Mello, poeta da resistência pela liberdade na América Latina, parceiro de Pablo Neruda em andanças e traduções, nos brindou com poemas universalmente citados e um quase inédito, que trouxe a floresta agonizante em versos de amor e inspiração.

TEDx Amazonia

Alexandre Sequeira, fotógrafo de rara sensibilidade, apresentou uma série de fotos de moradores de um vilarejo paraense com quem conviveu até desenvolver um espaço de confiança que lhe permitisse entrar na vida e na casa destas pessoas, retratando em tamanho natural a silueta dos habitantes impressa em cortinas coloridas de suas próprias casas. Lindo!

Para mim o encontro teve uma dimensão adicional pois vinha acompanhando algumas reuniões e processos de construção do TEDxAm aqui em São Paulo. Meus amigos Hélder Araújo, Marcus Colacino, Bia Sano, Bruno Fernandes e Lia Ascava, entre outros, estiveram mergulhados na produção deste TEDxAm durabte os últimos noventa dias, enfrentando todos os desafios externos e internos para realização de um encontro como este.

TEDx Amazonia

Para quem não sabe, conceber um encontro de quinhentas pessoas durante um fim-de-semana em um hotel flutuante no Rio Negro com todo cuidado e conforto, sem cobrar uma fortuna de cada pessoa por isto é um sonho maravilhoso de se ter, mas uma tarefa quase impossível de ser realizada.

Um pouco antes do final do evento tivemos a oportunidade de agradecer às 250 pessoas que trabalharam para que o TEDxAm pudesse acontecer. Aplaudimos as empresas que corajosamente aceitaram patrocinar um evento ainda novo, com altos custos e retorno de marca sutil e inovador já que não tínhamos por lá e nem no material de divulgação nenhum tipo de super-exposição das marcas OI, Santander e Natura.

A seca este ano na amazônia foi muito além do esperado. Os caminhos de água que são as rodovias amazônicas estavam quase secos, difíceis de navegar. Os barcos davam voltas enormes desviando de bancos de areia e alguns chegaram a encalhar com participantes dentro. O Jungle Palace, verdadeiro paraíso flutuante no Rio Negro, estava quase apoiado no fundo do leito de um braço do rio, quinze metros abaixo do seu nível normal de operação!

TEDx Amazônia

Com tudo isso os custos de produção triplicaram nos últimos dias. A logística se tornou um quebra-cabeça baseado no esforço, criatividade e improviso de muitos. O TEDxAm queimou suas reservas previstas e os organizadores acharam por bem abrir espaço para que a comunidade pudesse contribuir com doações espontâneas em uma conta bancária preparada para este fim.

TEDx Amazonia

As marcas do TEDxAmazônia para mim foram diversidade e abundância. Visões conflitantes para a construção de um mundo melhor foram apresentadas lado a lado, iniciativas sociais, culturais e inovadoras desfilaram pelo palco ininteruptamente. As apresentações e as conversações nos intervalos dispararam reflexões e provocaram profundamente todos os presentes. Foi uma chacoalhada geral, uma bomba de positividade que me fez olhar para meu espaço de cuidado para comigo mesmo, para com aqueles que eu amo e para aqueles outros deconhecidos que habitam, assim como eu, um lugar neste pequeno e imenso planeta.

POEMAS CIBERNÉTICOS DE LEWIS CARROL

7 jun

Buscando referências e exemplos sobre cibernética, enquanto lia AN INTRODUCTION TO CYBERNETICS by W. ROSS ASHBY, tive um estalo e me lembrei de uma série de poemas-puzzle de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll. Autor, poeta, matemático, charadista e enigmista, Carroll embutiu em seus textos diversos truques matemáticos disfarçados em palavras e sentenças na língua inglesa. Entre estes jogos de palavras estão so DOUBLETS.

Conheci os DOUBLETS no livro “o anticrítico” de AUGUSTO DE CAMPOS que os apresenta assim:

…e já os concreto doublets (1880)

jogo sério joco-sério

“curiosa matemática”

onde as palavras opostas devem ser obtidas

com o menor número de palavras interpostas

diferindo entre si

por uma letra

BLACK

blank

blink

clink

chink

chine

whine

WHITE

Lewis Carrol fala dos doublets assim:

O resultado das minhas meditações foi uma nova espécie de Puzzle — nova pelo menos para mim — que [...] vos ofereço, como uma noz acabada de colher, para ser quebrada pelos dentes omnívoros que já mastigaram tantos dos vossos Duplos Acrósticos. As regras do Puzzle são bastante simples. [...] Disseram-me que há um jogo americano envolvendo um princípio semelhante. Nunca o vi, e posso apenas dizer dos seus inventores, “pereant qui ante nos nostra dixerunt!”

L. C., carta ao Vanity Fair, Março de 1879.

Para mim aí está uma metáfora simples de uma progressão cibernética.

DEUS

meus

maus

mais

cais

CAOS

O que temos aqui não é uma série de palavras mas um fluxo, um movimento que constrói um novo significado para cada palavra.

NO encadeamento do fluxo DEUS e CASO surgem como parte de um mesmo sistema, fundem-se em uma mesma totalidade, apesar de isoladamente serem opostos. Considerando neste exemplo DEUS como sinônimo de ORDEM, claro.

TUDO

ludo

lodo

lado

nado

NADA

A próxima palavra só é possível a partir da anterior. Cada palavra tem seu significado próprio, mas sua integridade se dissolve na próxima palavra, como se esta já contivesse a próxima em si mesma.

LONGE

monge

monte

ponte

ponto

porto

PERTO

O movimento é fractal. Apenas a menor fração da palavra se modifica, a letra, e vai surgindo uma outra forma oposta à sua origem, sempre em um suave movimento. A alteração da letra obedece entretanto um princípio regulador que é o sentido que a palavra deve ter. Palavras inexistentes não podem ser usadas no jogo.

MANHÃ

manha

manda

mando

bando

bardo

tardo

TARDE

tardo

tordo

mordo

morto

morte

norte

NOITE

Aqui vemos quase o tempo passar, sem passar. Manhã, tarde e noite formam um dia, um ciclo que se resolve em si mesmo, construindo-se incrementalmente, degrau a degrau. Não temos uma causalidade linear e sim uma circularidade causal. A alavanca aplicada em cada linha é a mesma: trocar uma letra. Entretanto o resultado vai se tornando inesperado! Temos uma repetição de comando, mas o contexto do comando afeta o resultado do comando. Ou seja A age sobre B que em retorno age sobre A. Tal mecanismo é denominado regulação e permite a autonomia de um sistema (seja um organismo, uma máquina, um grupo social), a introdução desta idéia de retroação é de Norbert Wiener, um matemático estadunidense, conhecido como o fundador da cibernética.
SOL

sul

sua

LUA

loa

soa

SOL
Wiener chamou essa capacidade de auto-regulagem/controle de “retroalimentação negativa”; “retroalimentação” porque a saída do sistema (o antônimo final) afeta o comportamento futuro, e “negativa” porque, neste exemplo, as modificações efetuadas pela troca de letra de acordo com a regra termostato restabelecem o sentido do conjunto.

Claro que isto tudo que eu percebi é apenas mais um jogo, um modo de olhar um fluxo que distingui em meu viver na coerência de meu acoplamento com o meio. Tenho pesquisado um bocado por conta da série de eventos das Conversações Cibernéticas que se aproximam (serão em julho próximo) e essas ilações surgem e desaparecem o tempo todo para mim.

Quando um autômato for capaz de decidir seus critérios de auto-regulação e também reproduzir a si mesmo, então ele se aproximará da condição humana. Por isso é comum a confusão entre cibernética e robótica, em parte devido ao termo ciborgue (termo que pretendia significar CYBernetic ORGanism = Cyborg).

Para terminar um pouco de tudo, e um nadica de nada de noves fora, mais um poema de AUGUSTO DE CAMPOS que produziu os DOUBLETS em portugues deste texto:

TUDO

ludo

lodo

lado

nado

NADA

Metareciclando

19 mai

Realmente escutar a lista de metareciclagem durante alguns anos foi de uma importância fundamental em minha vida. No início eu me embriagava com as novidades, links e informações. Depois passei a vibrar com a energia de ativismo da galera. Então passei a me sentir íntimo de muitos, quase conhecendo, e seguia por pura convivência.

Mas foi depois que entendi o que havia ali e porque eu estava naquela lista. Eu percebia uma dinâmica de interações que rodeava um conceito, uma busca pelo entendimento do conceito, uma paixão pela organização do conceito, uma obstinação na definição do conceito e um tesão compartilhado se ver vivendo o conceito. E este conceito era, de verdade, absolutamente único e subjetivo para todos, e ninguém se incomodava com isso, pelo contrário!

Todos se aceitavam na legitimidade de compartilhar um conceituar no fluir dos viveres, fazeres e sentires íntimos relatados num espaço de mútua confiança daquela lista! Genial!

Uma homeostase sem centralidade, vivida por um punhado de gente espalhada no tempo e no espaço. Gente que ao tentar reinventar o mundo, se reinventou, e consequentemente reinventou o mundo! Não, reinventou não é a palavra mais correta, Metareciclaram o mundo, pessoal! Valeu mesmo caros mestres/aprendizes inspiradores.

* Foto original de dpadua
Encontrão Metareciclagem no Bailux: a bandeira da terra livre

Sobre Humberto Maturana

13 mai


Bilogia Cultural em São Paulo

Originally uploaded by Papagallis.

Muitos amigos me pedem que escreva algo sobre Maturana e a importância de seu trabalho. Bem, em minhas pesquisas na internet encontrei uma tese de Miriam Monteiro de Castro Graciano:
A TEORIA BIOLÓGICA DE HUMBERTO MATURANA E SUA REPERCUSSÃO FILOSÓFICA da qual tomo a liberdade de retirar um trecho de seu resumo, Aqui creio que temos uma apresentação formal de HM bastante razoável. Confiram:

Humberto Maturana é um neurobiólogo que concebeu uma teoria biológica do conhecimento. Ainda que o tenha feito sob um ponto de vista científico, sua teoria apresenta conceitos e noções originais que nos auxiliam em nossas reflexões filosóficas.

  • Primeiro, porque ele é um neurocientista falando do conhecimento, assunto tradicionalmente reservado à filosofia, a partir de um ponto de vista científico não reducionista.
  • Segundo, porque ele reconhece e aponta explicitamente, em um de seus artigos, que o conhecimento científico e filosófico não independem um do outro, pois trata-se de duas dimensões do viver humano.
  • Terceiro, porque, ao expor sua teoria, ele nos indica que, como seres vivos, somos constitutivamente incapazes de observar um mundo de objetos independentes daquilo que fazemos ao observá-lo.
  • Quarto, porque ele exclui a viabilidade da ocorrência de impressões sensíveis sem cair em uma perspectiva racionalista nem idealista, pois, como cientista, não abre mão do papel da experiência na produção do conhecimento.
  • Quinto, porque ele traz a contingência para o interior de uma proposição tautológica, apontando assim para a relatividade de nossos discursos sem fragilizar o seu próprio discurso. Através dessas questões, Maturana nos conduz em uma reflexão que é ao mesmo tempo epistemológica, ontológica e ética.
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