POEMAS CIBERNÉTICOS DE LEWIS CARROL

Buscando referências e exemplos sobre cibernética, enquanto lia AN INTRODUCTION TO CYBERNETICS by W. ROSS ASHBY, tive um estalo e me lembrei de uma série de poemas-puzzle de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll. Autor, poeta, matemático, charadista e enigmista, Carroll embutiu em seus textos diversos truques matemáticos disfarçados em palavras e sentenças na língua inglesa. Entre estes jogos de palavras estão so DOUBLETS.

Conheci os DOUBLETS no livro “o anticrítico” de AUGUSTO DE CAMPOS que os apresenta assim:

…e já os concreto doublets (1880)

jogo sério joco-sério

“curiosa matemática”

onde as palavras opostas devem ser obtidas

com o menor número de palavras interpostas

diferindo entre si

por uma letra

BLACK

blank

blink

clink

chink

chine

whine

WHITE

Lewis Carrol fala dos doublets assim:

O resultado das minhas meditações foi uma nova espécie de Puzzle — nova pelo menos para mim — que [...] vos ofereço, como uma noz acabada de colher, para ser quebrada pelos dentes omnívoros que já mastigaram tantos dos vossos Duplos Acrósticos. As regras do Puzzle são bastante simples. [...] Disseram-me que há um jogo americano envolvendo um princípio semelhante. Nunca o vi, e posso apenas dizer dos seus inventores, “pereant qui ante nos nostra dixerunt!”

L. C., carta ao Vanity Fair, Março de 1879.

Para mim aí está uma metáfora simples de uma progressão cibernética.

DEUS

meus

maus

mais

cais

CAOS

O que temos aqui não é uma série de palavras mas um fluxo, um movimento que constrói um novo significado para cada palavra.

NO encadeamento do fluxo DEUS e CASO surgem como parte de um mesmo sistema, fundem-se em uma mesma totalidade, apesar de isoladamente serem opostos. Considerando neste exemplo DEUS como sinônimo de ORDEM, claro.

TUDO

ludo

lodo

lado

nado

NADA

A próxima palavra só é possível a partir da anterior. Cada palavra tem seu significado próprio, mas sua integridade se dissolve na próxima palavra, como se esta já contivesse a próxima em si mesma.

LONGE

monge

monte

ponte

ponto

porto

PERTO

O movimento é fractal. Apenas a menor fração da palavra se modifica, a letra, e vai surgindo uma outra forma oposta à sua origem, sempre em um suave movimento. A alteração da letra obedece entretanto um princípio regulador que é o sentido que a palavra deve ter. Palavras inexistentes não podem ser usadas no jogo.

MANHÃ

manha

manda

mando

bando

bardo

tardo

TARDE

tardo

tordo

mordo

morto

morte

norte

NOITE

Aqui vemos quase o tempo passar, sem passar. Manhã, tarde e noite formam um dia, um ciclo que se resolve em si mesmo, construindo-se incrementalmente, degrau a degrau. Não temos uma causalidade linear e sim uma circularidade causal. A alavanca aplicada em cada linha é a mesma: trocar uma letra. Entretanto o resultado vai se tornando inesperado! Temos uma repetição de comando, mas o contexto do comando afeta o resultado do comando. Ou seja A age sobre B que em retorno age sobre A. Tal mecanismo é denominado regulação e permite a autonomia de um sistema (seja um organismo, uma máquina, um grupo social), a introdução desta idéia de retroação é de Norbert Wiener, um matemático estadunidense, conhecido como o fundador da cibernética.
SOL

sul

sua

LUA

loa

soa

SOL
Wiener chamou essa capacidade de auto-regulagem/controle de “retroalimentação negativa”; “retroalimentação” porque a saída do sistema (o antônimo final) afeta o comportamento futuro, e “negativa” porque, neste exemplo, as modificações efetuadas pela troca de letra de acordo com a regra termostato restabelecem o sentido do conjunto.

Claro que isto tudo que eu percebi é apenas mais um jogo, um modo de olhar um fluxo que distingui em meu viver na coerência de meu acoplamento com o meio. Tenho pesquisado um bocado por conta da série de eventos das Conversações Cibernéticas que se aproximam (serão em julho próximo) e essas ilações surgem e desaparecem o tempo todo para mim.

Quando um autômato for capaz de decidir seus critérios de auto-regulação e também reproduzir a si mesmo, então ele se aproximará da condição humana. Por isso é comum a confusão entre cibernética e robótica, em parte devido ao termo ciborgue (termo que pretendia significar CYBernetic ORGanism = Cyborg).

Para terminar um pouco de tudo, e um nadica de nada de noves fora, mais um poema de AUGUSTO DE CAMPOS que produziu os DOUBLETS em portugues deste texto:

TUDO

ludo

lodo

lado

nado

NADA

Censura técnica tira do ar nosso livro no Blogger




Pencil Vs Camera – 16

Originally uploaded by Ben Heine.

O livro virtual Para Entender a Internet, compilado pela Juliano Spyer foi sumariamente retirado do ar pela equipe do Blogger por ter sido considerada spam! Nem uma linha de tudo o que estava naquelas páginas vendia ou promovia serviço ou mercadoria de qualquer espécie. Era um livro grátis com artigos sobre internet e cultura digital. Só isso.

Esta situação absurda apenas confirma uma situação que enfrentamos a mais de vinte anos tanto na internet como nos projetos desenvolvidos dentro de grandes corporações: a equipe da área de segurança da informação é obtusa!
Como muitos de vocês sabem, existem profissionais de TI que atuam na gestão do fluxo de informações dentro das empresas. São eles que determinam as políticas de uso dos servidores, senhas e permissões de acesso. Geralmente são engenheiros que não tiveram em sua formação acadêmica nenhum tipo de preparo para olidar com pessoas. Desenham processos quadrados onde o usuário é visto sempre como uma ameaça em potencial. Desconfiam a priori de qualquer ser humano vivo e arquitetam os sistemas de modo a prevenir e bloquear as possibilidades de interação entre as pessoas através de seus sistemas.
Essa área geralmente tem papel estratégico nos negócios já que a informação é vista como um ativo econômico das empresas. Os caras de TI conquistaram um espaço de julgamento, decisão e controle que os torna invulneráveis dentro das corporações. Nem o presidente, nem os acionistas ou o conselho administrativo ousa questionar seus desígnios! Até porque os técnicos de segurança da informação falam um jargão próprio que blinda qualquer possibilidade de negociação.
Então para TI tudo é uma ameaça potencial. Eles não tem um olhar humano de bom senso e nem possuem qualificação profissional para assumir alguma decisão que envolva exceções aos seus processos engessados.
Com isso eles bloqueiam os fluxos de informação e garantes seus empregos, claro.
Você meu caro Juliano, foi vítima destes caras, tenha certeza. A área de marketing e relacionamento com o cliente da Google, certamente não está satisfeita com este tipo de prática. Não estou aqui defendendo a Google como marca, apenas denuncio o que todos nós já sabemos, as empresas não são monolitos de decisão e coerência, estão mais para uma cidade dominada por tribos, grupos, áreas, departamentos que não se entendem e nem se alinham em suas práticas e condutas.
Eu também tenho um artigo meu neste livro e senti muito pela arbitrariedade do gesto de remoção do material. Mas senti ainda mais por te saber que logo você, uma pessoas absolutamente bem intencionada em relação à internet e seus potenciais de transformação humana, foi vítima de uma coisas dessas.
Quer saber? Vamos escrever um outro livro (já está na hora) e publicar de novo em algum lugar. Nunca desistir, jamais se render!
abs

Metareciclando

Realmente escutar a lista de metareciclagem durante alguns anos foi de uma importância fundamental em minha vida. No início eu me embriagava com as novidades, links e informações. Depois passei a vibrar com a energia de ativismo da galera. Então passei a me sentir íntimo de muitos, quase conhecendo, e seguia por pura convivência.

Mas foi depois que entendi o que havia ali e porque eu estava naquela lista. Eu percebia uma dinâmica de interações que rodeava um conceito, uma busca pelo entendimento do conceito, uma paixão pela organização do conceito, uma obstinação na definição do conceito e um tesão compartilhado se ver vivendo o conceito. E este conceito era, de verdade, absolutamente único e subjetivo para todos, e ninguém se incomodava com isso, pelo contrário!

Todos se aceitavam na legitimidade de compartilhar um conceituar no fluir dos viveres, fazeres e sentires íntimos relatados num espaço de mútua confiança daquela lista! Genial!

Uma homeostase sem centralidade, vivida por um punhado de gente espalhada no tempo e no espaço. Gente que ao tentar reinventar o mundo, se reinventou, e consequentemente reinventou o mundo! Não, reinventou não é a palavra mais correta, Metareciclaram o mundo, pessoal! Valeu mesmo caros mestres/aprendizes inspiradores.

* Foto original de dpadua
Encontrão Metareciclagem no Bailux: a bandeira da terra livre

Sobre Humberto Maturana


Bilogia Cultural em São Paulo

Originally uploaded by Papagallis.

Muitos amigos me pedem que escreva algo sobre Maturana e a importância de seu trabalho. Bem, em minhas pesquisas na internet encontrei uma tese de Miriam Monteiro de Castro Graciano:
A TEORIA BIOLÓGICA DE HUMBERTO MATURANA E SUA REPERCUSSÃO FILOSÓFICA da qual tomo a liberdade de retirar um trecho de seu resumo, Aqui creio que temos uma apresentação formal de HM bastante razoável. Confiram:

Humberto Maturana é um neurobiólogo que concebeu uma teoria biológica do conhecimento. Ainda que o tenha feito sob um ponto de vista científico, sua teoria apresenta conceitos e noções originais que nos auxiliam em nossas reflexões filosóficas.

  • Primeiro, porque ele é um neurocientista falando do conhecimento, assunto tradicionalmente reservado à filosofia, a partir de um ponto de vista científico não reducionista.
  • Segundo, porque ele reconhece e aponta explicitamente, em um de seus artigos, que o conhecimento científico e filosófico não independem um do outro, pois trata-se de duas dimensões do viver humano.
  • Terceiro, porque, ao expor sua teoria, ele nos indica que, como seres vivos, somos constitutivamente incapazes de observar um mundo de objetos independentes daquilo que fazemos ao observá-lo.
  • Quarto, porque ele exclui a viabilidade da ocorrência de impressões sensíveis sem cair em uma perspectiva racionalista nem idealista, pois, como cientista, não abre mão do papel da experiência na produção do conhecimento.
  • Quinto, porque ele traz a contingência para o interior de uma proposição tautológica, apontando assim para a relatividade de nossos discursos sem fragilizar o seu próprio discurso. Através dessas questões, Maturana nos conduz em uma reflexão que é ao mesmo tempo epistemológica, ontológica e ética.

Como podemos conviver na unidade e diversidade, colaborando ou apenas co-existindo?

Respondendo a uma pergunta reflexiva de Ignacio Muñoz Cristi:

Daqui de onde escuto a pergunta de Inacio, distinguo um potente convite a refletirmos sobre nossas dinâmicas relacionais em um mundo sustentável. Cada vez mais vivemos nas grandes metrópoles, e aqui estamos cercados de pessoas muito diferentes de nós. Gente de todo tipo de perfil profissional, político, cultural e religioso. Tribos, grupos, torcidas e gangues de seres humanos absolutamente distintos. Vivemos todos lado a lado, formamos conjuntos humanos agrupados em bairros, empresas e associações. Seguimos assim acoplados em cada um desde conjuntos vivendo numa totalidade. Uma totalidade composta pela diversidade humana!

O respeito pelo outro surge como algo fundamental neste espaço. Perceber quem está ao nosso lado e aceitar sua expressão individual, dentro dos limites da cidadania, é fundamental para evitarmos os constantes conflitos entre nós. Regras e leis passam a regular nossa urbanidade, regulando o trânsito, punindo os preconceitos e normatizando os micro-direitos de cada um.

Mecanismos sociais de coexistência começam a surgir com força de necessidade neste século XXI. Mas esta coexistência é impessoal, genérica, fria. Esta coexistência regulada assegura nossa integridade física, patrimonial e emocional, mas não permite que possamos ir além disso, não possibilita que desfrutemos de tudo que a amorosidade humama pode gerar no seio de uma comunidade.

Quanta criatividade poderia emergir destes encontros! Quanta riqueza na solução de problemas e construção de bem-estar teríamos se soubéssemos estar uns com os outros numa perspectiva colaborativa. Que dinâmica fantástica poderia surgir quando vivêssemos no respeito mútuo pelo outro, entendendo que, a partir de si mesmo, do que viveu e conhece, o outro é 100% válido em suas crenças e opiniões.

Vejam bem, não falo sobre uma aceitação baseada na tolerância. Nem de uma amorosidade utópica. Falo do amar que surge a partir do entendimento de que vivemos realidades completamente distintas, onde cada um de nós conhece o mundo em um devir de experiência únicas e instranferíveis. Falo de uma amorosidade fundante de nossa espécie, nós como mamíferos cuidadores que por milhões de anos conviveram na aceitação mútua de seus filhotes, em coordenações de coordenações que permitiramo surigmento de uma linguagem sofisticada.

Então temos uma origem colaborativa, um fluxo biológico cultural que nos trouxe até bem pouco tempo atrás, como seres harmoniosos e coordenados. Eventos de nossa deriva civilizatória tem nos trazido, nos últimos 10 mil anos, a um caminho de guerra, intolerância e submetimento.

Ouço a pergunta de Inacio: “Como podemos conviver na unidade e diversidade, colaborando ou apenas co-existindo?” com um convite à uma reflexão que poderá ampliar nossa visão e nos levar a um outro espaço relacional, mais harmonioso e sustentável.