POEMAS CIBERNÉTICOS DE LEWIS CARROL
07/06/2010 Deixe um comentário
Buscando referências e exemplos sobre cibernética, enquanto lia AN INTRODUCTION TO CYBERNETICS by W. ROSS ASHBY, tive um estalo e me lembrei de uma série de poemas-puzzle de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll. Autor, poeta, matemático, charadista e enigmista, Carroll embutiu em seus textos diversos truques matemáticos disfarçados em palavras e sentenças na língua inglesa. Entre estes jogos de palavras estão so DOUBLETS.
Conheci os DOUBLETS no livro “o anticrítico” de AUGUSTO DE CAMPOS que os apresenta assim:
…e já os concreto doublets (1880)
jogo sério joco-sério
“curiosa matemática”
onde as palavras opostas devem ser obtidas
com o menor número de palavras interpostas
diferindo entre si
por uma letra
BLACK
blank
blink
clink
chink
chine
whine
WHITE
Lewis Carrol fala dos doublets assim:
O resultado das minhas meditações foi uma nova espécie de Puzzle — nova pelo menos para mim — que [...] vos ofereço, como uma noz acabada de colher, para ser quebrada pelos dentes omnívoros que já mastigaram tantos dos vossos Duplos Acrósticos. As regras do Puzzle são bastante simples. [...] Disseram-me que há um jogo americano envolvendo um princípio semelhante. Nunca o vi, e posso apenas dizer dos seus inventores, “pereant qui ante nos nostra dixerunt!”
L. C., carta ao Vanity Fair, Março de 1879.
Para mim aí está uma metáfora simples de uma progressão cibernética.
DEUS
meus
maus
mais
cais
CAOS
O que temos aqui não é uma série de palavras mas um fluxo, um movimento que constrói um novo significado para cada palavra.
NO encadeamento do fluxo DEUS e CASO surgem como parte de um mesmo sistema, fundem-se em uma mesma totalidade, apesar de isoladamente serem opostos. Considerando neste exemplo DEUS como sinônimo de ORDEM, claro.
TUDO
ludo
lodo
lado
nado
NADA
A próxima palavra só é possível a partir da anterior. Cada palavra tem seu significado próprio, mas sua integridade se dissolve na próxima palavra, como se esta já contivesse a próxima em si mesma.
LONGE
monge
monte
ponte
ponto
porto
PERTO
O movimento é fractal. Apenas a menor fração da palavra se modifica, a letra, e vai surgindo uma outra forma oposta à sua origem, sempre em um suave movimento. A alteração da letra obedece entretanto um princípio regulador que é o sentido que a palavra deve ter. Palavras inexistentes não podem ser usadas no jogo.
MANHÃ
manha
manda
mando
bando
bardo
tardo
TARDE
tardo
tordo
mordo
morto
morte
norte
NOITE
Aqui vemos quase o tempo passar, sem passar. Manhã, tarde e noite formam um dia, um ciclo que se resolve em si mesmo, construindo-se incrementalmente, degrau a degrau. Não temos uma causalidade linear e sim uma circularidade causal. A alavanca aplicada em cada linha é a mesma: trocar uma letra. Entretanto o resultado vai se tornando inesperado! Temos uma repetição de comando, mas o contexto do comando afeta o resultado do comando. Ou seja A age sobre B que em retorno age sobre A. Tal mecanismo é denominado regulação e permite a autonomia de um sistema (seja um organismo, uma máquina, um grupo social), a introdução desta idéia de retroação é de Norbert Wiener, um matemático estadunidense, conhecido como o fundador da cibernética.
SOL
sul
sua
LUA
loa
soa
SOL
Wiener chamou essa capacidade de auto-regulagem/controle de “retroalimentação negativa”; “retroalimentação” porque a saída do sistema (o antônimo final) afeta o comportamento futuro, e “negativa” porque, neste exemplo, as modificações efetuadas pela troca de letra de acordo com a regra termostato restabelecem o sentido do conjunto.
Claro que isto tudo que eu percebi é apenas mais um jogo, um modo de olhar um fluxo que distingui em meu viver na coerência de meu acoplamento com o meio. Tenho pesquisado um bocado por conta da série de eventos das Conversações Cibernéticas que se aproximam (serão em julho próximo) e essas ilações surgem e desaparecem o tempo todo para mim.
Quando um autômato for capaz de decidir seus critérios de auto-regulação e também reproduzir a si mesmo, então ele se aproximará da condição humana. Por isso é comum a confusão entre cibernética e robótica, em parte devido ao termo ciborgue (termo que pretendia significar CYBernetic ORGanism = Cyborg).
Para terminar um pouco de tudo, e um nadica de nada de noves fora, mais um poema de AUGUSTO DE CAMPOS que produziu os DOUBLETS em portugues deste texto:
TUDO
ludo
lodo
lado
nado
NADA







