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EXISTE ALGUÉM DO OUTRO LADO DA SUA REDE SOCIAL?

7 jan

Muitas interações e pouco relacionamento. Em uma cultura orientada ao individualismo todos querem interagir sobre os assuntos que acham interessantes, e quase ninguém tem tempo ou ouvidos para escutar o que se passa com a pessoa do outro lado da rede.

Focalizando melhor a questão pergunto: existe mais alguém em seu mundo além de você mesmo? Se houver alguém em sua vida que seja tão importante para você como você mesmo, então não vives em um planeta solitário.

Quantas pessoas ao seu redor influenciam diretamente sua vida a ponto de você promover mudanças em seus hábitos e rotinas para seguir estando ao lado delas, ou para que elas vivam em um bem-estar? Se para você existem alguns assim, pode ter certeza que estes são os únicos outros habitantes de seu mundo.

Cada um de nós vive um conjunto de opiniões e preferências que nos define como pessoa, e aí estão as fronteiras invisíveis do planeta pessoal de cada um.

Vivemos nestes mundinhos particulares e geralmente deixamos passar pela alfândega apenas pessoas que nos ofereçam alguma afinidade, vantagem ou benefício.

Vivemos constantemente adaptados em um meio ambiente social, e na grande maioria dos casos as pessoas são meras perturbações em nossos planos de sobrevivência e controle.

Toleramos muitas pessoas em nosso trabalho, família, igreja e condomínio apenas para não termos problemas imediatos mas, de modo geral, a grande maioria dos seres humanos que conhecemos são meros espectros, personagens secundários, fantasmas que perambulam em nosso cotidiano e nossas lembranças. 

Aprendemos a respeitar os outros como cidadãos e indivíduos (na melhor das hipóteses), mas não os reconhecemos como pessoas que possam fazer alguma grande diferença em nossas vidas, estejam elas tristes ou alegres.

Aqueles que nem conhecemos, estes então praticamente não existem para nós! Sequer estão vivos. Assistimos todos os dias notícias sobre centenas de mortos por fome, guerra, catástrofe ou descaso de algum governo e tratamos isto como sendo mais um destes absurdos absolutamente aceitáveis.

Mas de algum tempo para cá estamos vendo chegar uma nova onda digital trazendo pelas redes socias uma multidão de novos desconhecidos que passamos a aceitar como amigos após um simples clique.

As redes sociais ampliam nossas possibilidades de relacionamemto com pessoas das mais diversas origens, entretanto seguimos nos limitando a conexões somente com gente que já faz parte do nosso mundo, seja por afinidade ou similaridade.

Desconfiamos dos desconhecidos enquanto não sabemos ao certo quem são e o que querem, e desconfiamos dos conhecidos por sabermos exatamente quem são e o que querem!

Todo o atrito, dificuldade e desafio que as pessoas nos trazem podem ser facilmente excluídos em nossas preferências de rede.

A desconfiança que intimamente mantemos uns dos outros, nos leva a ter um cuidado constante com as informações que chegam até nós.

Confiamos nas enciclopédias, como se elas tivessem sido escritas impessoalmente, e acreditamos na imprensa, como se a imparcialidade fosse possível, mas desconficamos uns dos outros.

E fazemos isto o tempo todo. Lemos as postagens com um olhar avaliativo pensando sempre se vale a pena ou não continuar seguindo aquela pessoa.

Somos faxineiros dedicados de nossas timelines, sempre criteriosos julgando, avaliando e varrendo prá fora as idéias desagradáveis e os comentários que não aceitamos.

Com isso estamos recriando nas redes o que já temos no mundo presencial de sobra: total controle sobre as pessoas com quem nos relacionamos.

A rede é um risco a ser vivido por cada um de nós! Sem esta abertura pessoal, sem esta coragem básica de escutar o que o outro diz a partir do contexto que o outro está vivendo, não pode haver um relacionamento, serão apenas meras interações.

Os iguais se aproximam, guiados por sentimentos de pertencimento e auto-proteção, e aí está o paradoxo, por mais que a rede seja um infinito de possibilidades e transformações, enquanto você se conectar ao seus clones, seguirá sendo sempre apenas o bom e velho você mesmo.

É isto que nos torna sózinhoa em uma multidão e agora, isolados em uma rede, com muitos amigos e seguidores, perambulando em lugares que merecem um checkin, mas que são meros cenários de um mundo que só existe de cada um de nós.

Sobre a Geração Y para a revista Results On

20 jul

Artigo na ResultsON #23
Carta de uma geração à outra

Por Luiz Algarra

Afinal quem é o responsável por esta Geração Y? Como foi que tudo isso começou?

Nossas escolas são as mesmas, a programação de TV quase não mudou, o governo segue vivendo os mesmos dilemas, a igreja defende os mesmo valores, as forças armadas ainda marcham igual, então o que houve para que uma pequena multidão de jovens surgisse com um comportamento tão distinto do nosso?

Folgados, distraídos e insubordinados? Sempre fazendo tudo ao mesmo tempo, impacientes, preocupados apenas consigo mesmo mas interessados em construir um mundo melhor? São assim mesmo estes ipsilons?

De fato não sabemos como lidar com eles. Fazemos eventos, editamos livros, tabulamos pesquisas, contratamos e demitimos uma porção na tentativa de entendê-los um pouco, mas não estamos conseguindo.

As empresas que construímos parecem que não são boas o bastante. As escolas que mantemos ficaram repentinamente ultrapassadas. A política está virando uma bagunça com gente nas ruas e na internet pedindo liberdade a toda hora. Nem bem fabricamos um modelo de computador, e já querem de outro jeito. Mais leve, mais fino, mais rápido e sem teclado, nem mouse! Onde estávamos quando nossos filhos se transformaram em uma espécie de gente diferente de nós?

Bem, creio que todos sabemos a resposta: estávamos muito ocupados, envolvidos na luta contra o desemprego e enredados na ameaça do não-consumo, preocupados com nossos seguros de saúde e aposentadoria, trabalhando doze horas por dia, e também aos sábados.

Aqueles garotos de óculos, meninas de tênis e crianças que não saíam do videogame agora cresceram e querem continuar brincando, jogando alguma coisa que os mantenha não apenas vivos, mas conectados e intensamente concentrados em algo.

Então está certo, parabéns! Vocês conseguiram. Estão disputando nossos empregos, nos colocaram para votar leis que atendem suas liberdade e estamos modificando nossos negócios para que você garotos sejam nossos clientes. Mas, atenção!

Deixo apenas um conselho meus jovens amigos, não se afastem de seus filhos, nunca eles e jamais abandonem a oportunidade de construírem juntos um bem-estar para todos vocês.

Se vocês falharem nisso, como nós falhamos, se preparem pois uma nova geração virá em Eles também terão uma etiqueta, rótulo ou apelido, e talvez venham para tomar o mundo de suas mãos, mesmo que ainda não saibam direito o que fazer com ele.

Por isso estejam preparados desde já. Fiquem perto de seus bebês e nunca se preocupem com o futuro de seus filhos, vivam com eles intensamente no presente e deixem que tudo que está por vir seja muito bem cuidado por eles, com vocês fazendo parte de tudo isso, saibam.

Se vocês conservarem por eles o afeto, o respeito mútuo e uma real curiosidade por tudo que eles trazem, vocês terão conseguido algo que minha geração não conseguiu: acabar com o abismo que separa as gerações. Este é o X da questão.

Conversar sobre o impossível possivelmente muda tudo!

14 mai

BeFunky

Toda ação futura para solução dos problemas atuais, surge na fala livre e plena de possibilidades das pessoas que vivem hoje estes problemas.

Como viver, crescer e se conservar em empresas que não mudam? Nas empresas, mais do que soluções de longo prazo, é preciso liberar a fala e a mente das pessoas para que elas construam agora mesmo alternativas possíveis de ação, para que liberem seu potencial criativo se livrando da angústia e frustração cotidianas.

Na complexidade que vivem as pessoas acopladas a estruturas como empresas e organizações, não é possível resolver os problemas que as afligem. Sempre os fluxos de decisão e o contexto geral estão muito além do alcance de qualquer membro da equipe. Mesmo a diretoria, que tem prerrogativas de decisão mais amplas, segue de mãos amarradas pelas limitações impostas por quem os nomeou, seja um conselho ou um grupo de acionistas. A lógica do capital, as estruturas hierarquizantes e as culturas empresariais vigentes deixam muito pouco espaço para a expressão e decisão humanas.

O ciclo de mudanças das empresas é tão lento que, vivendo dentro delas, nem é possível percebê-lo. Se passam dez, quinze, vinte e cinco anos para que alguma mudança ocorra, e daí já temos uma geração de funcionários praticamente se aposentando! Desalentador? Nem tanto, depende de como abordamos este cenário e de que maneira tratamos o nosso cotidiano dentro de estruturas como estas. Renunciar ao nossos ímpetos de viver, construir, transformar e crescer nunca é uma boa ideia pois podemos nos entristecer, deprimir, adoecer e até morrer prematuramente quando tentamos viver de um modo que sufoca a vida que há em nós. Mas talvez haja uma saída por uma rota de fuga nova e desconhecida.

As pessoas reagem ao mundo não como ele é objetivamente, mas ao mundo conforme ele é percebido por cada um que o observa. Então não há objetividade, mas apenas o entrecruzamento de uma infinidade de pontos de vista e opiniões, sustentados por nossas falas, linguagem e narrativas. É impossível nos referirmos a uma situação da qual participamos sem que nossas descrições sejam influenciadas por nossas próprias referências pessoais. Então vivemos limitando nossa compreensão do que nos cerca ao nosso repertório de experiências, frases e significados.

Para perceber uma saída é importante notar que, por toda a parte onde andamos dentro das empresas, o que mais percebemos é uma restrição geral no linguajear das pessoas. Participando das reuniões, encontros, negociações até almoços de negócios tudo que ouvimos é sempre o mesmo blablá blá de sempre. O jargão institucional é uma espécie de língua oficial, idioma obrigatório que nivela a linguagem e restringe o repertório de possibilidades. Os indivíduos em seu viver ordinário e mundano, enroscados no que consideram ser seus problemas, conversam, falam, pensam, repetem, conversam de novo e,por mais que deem voltas, não encontram novas explicações para tudo o que lhes ocorre. Então daí começa o sofrimento, quando nos identificamos com uma explicação limitada sobre o nosso próprio sofrer. Frases como: “As coisas são assim mesmo. Ninguém conseguem mudar isso. Foi sempre assim desse jeito. Não adianta tentar mudar nada disso.” São como tampas mal encaixadas de uma panela de pressão superaquecida, não resolvem mas disfarçam os limites de entendimento instalados em cada indivíduo.

Então neste ponto temos uma possibilidade de ação interessante. Já que não podemos mudar o problema, pelo menos não imediatamente, então por que não tentamos transformar os impasses em que nos encontramos quando refletimos sobre o problema? Novas perspectivas e pontos de vista, diferentes daqueles que conservamos, sempre nos colocam de novo em movimento, nos libertando do círculo vicioso de nossas próprias, mesmas e velhas opiniões. Mas para termos a chance de construir novas abordagens de nossos problemas, precisamos de contato humano com outras pessoas que também vivem e conhecem estes problemas, ou melhor gente que também vive presa em seus próprios círculos de opinião mas que tem, pela variedade humana, uma visão sempre um pouco diferente da nossa.
Então criar espaços para a conversação, onde se busca fazer emergir uma visão de mundo compartilhada pela diversidade de opiniões de um grupo, ajuda bastante a co-construir realidades alternativas, novas conotações, com as quais o sistema humano desenvolve novas perspectivas que vão além do comportamento automático.

Não se trata de solucionar problemas, mas de solucionar impasses na resolução de problemas, através da mudança de perspectiva que permita um melhor agenciamento do próprio sistema para tomada de decisões e mobilização de seu potencial auto-organizativo. O trabalho do facilitador neste caso fica sendo facilitar o diálogo entre as diferente vozes do grupo, garantindo a operação de diálogo que inclui e aceita a ambiguidade, gerindo um contexto que suporte mal-entendidos e contradições, diferenças que, quando compartilhadas, permitem gerar descrições mais abrangentes e sistemicamente menos antagônicas do problema compartilhado. A facilitação de diálogos deve promover um canal de expressão livre e reconhecido como válido enquanto experiência de conversação por seus participantes, de modo a permitir um melhor agenciamento do próprio sistema para tomada de decisões.

Para isso creio que o melhor meio é gerar intervenções sutis e pontuais, sempre através de perguntas conversacionais, reflexivas e circulares. Perguntas que procurem explorar a influência do problema na vida do grupo e a influência do grupo na construção do problema. Perguntas conversacionais, são aquelas que abem espaço para novas perguntas e criam oportunidades para que novos significados emerjam. Através de mudança das perspectivas o grupo encontra em sua fala novas possibilidades de agenciamento do sistema, para tomada de decisões e mobilização de seu próprio potencial auto-organizativo.

A conversação orientada desse modo introduz complexidade nas histórias, sugere ações, que não necessariamente serão encaminhadas, mas que dão lugar ao surgimento inédito de alternativas possíveis de ação. Com isso as pessoas podem se reconectar em seus fluxos de vida, experimentar um dia diferente do outro, ir para além dos automatismos comportamentais e viver como seres humanos, sem todo aquele stress e angústia que vem acompanhando os trabalhadores das corporações nas últimas décadas.

Palestra e artigo para o Top of Mind 2011

4 mai

Escrevi este artigo para a revista Poder Digital, edição exclusiva impressa e distribuída como encarte da Folha de São Paulo somente na Grande São Paulo, por ocasião da entrega do Top of Mind 2011 e pelos quinze anos de aniversário do UOL. Se quiserem ver a íntegra do debate acessem os vídeos aqui e a versão integral em PDF da revista aqui. Boa leitura, amigos!

Rede de Conversações Informais A partir do que?

8 set

Ignacio Muñoz Cristi

(Ignacio Muñoz Cristi (Meta-tradução de Luiz Algarra)
O humano surge, evolutivamente, no conversar e se conserva habitando em redes de conversações que se constituem como um fenômeno cultural. Assim nos fazem os humanos, convivendo com humanos. O humano não é apenas a corporalidade Homo Sapiens, é um modo de vida que se realiza em uma matriz de relações sociais na qual, conversando, pessoas se encontram e se realizam como tal.
As redes de conversações formais são todas aquelas que surgem como espaços relacionais  especificados com algum propósito, orientados a algum resultado, seja político, educativo, religioso, etc. Estes espaços são especificados, estabelecidos, desenhados a partir de critérios determinados. Dependendo de como se vive e convive nestes espaços, surgirão as propriedades da matriz relacional definida no conversar das pessoas que a compõe. Pode-se então seguir na confiança e na colaboração, ou na desconfiança e na obediência, gerando assim derivas completamente distintas, uma social e a outra instrumental.
As redes de conversações informais são todas aquelea que ocorre em espaços sem formato, ou com um meta-formato que simplesmente abstrai e transpõem as coerência básicas do âmbito social. Os que as caracteriza as redes de conversações informais é que não estão orientadas a consolidação de um resultado, e não tem nenhum propósito além do próprio prazer do encontro entre pessoas que querem falar e ser escutadas. Como estas redes estão abertas às possibilidades de coinspirar coordenações de ações conjuntas, sempre poderão gerar resultados, porém num aspecto espontâneo.
Do mesmo modo que as conversações em espaços formais, o que define o rumo seguido pelas conversações informais será o modo das pessoas se relacionarem, seja por meio de conversas de colaboração no sentir da confiança, ou conversas de obediência a partir do controle.
Então, se podemos dizer que os espaços formais ou informais de conversação geram bem-estar ou mal-estar conforme os vivemos ou convivemos, então a convivência humana, historicamente neste presente tem ocorrido e ocorre fundamentalmente em espaços informais de conversação, nos quais tem surgido a maior parte das criações humanas fundamentais, assim mesmo, sem formato, estabelecidas consensualmente no calor da convivência e no prazer de fazermos coisas juntos.
Por outro lado, nossa história nos últimos 10 mil anos tem sido centrada em relações culturais (redes de conversação) de desconfiança, controle, autoridade, obediência, apropriação e competição. A partir disto se tem tentado formalizar insidiosamente os espaços conversacionais das mais diversas maneiras para tornar possível a manipulação de pessoas na a realização de inúmeros objetivos, sejam políticos, ideológicos, econômicos, etc. Assim, isto vem gerando dor e sofrimento, bem como desarmonia ecológica ao se romper a dinâmica indivíduo-sociedade e biosfera-antroposfera.
As redes de conversações informais surgem com o propósito de restaurar o potencial educativo espontâneo dos encontros livres entre pessoas que desejam compartilhar, colaborar e coinspirar em torno da aprendizagem, gerando matrizes relacionais-sociais que aspiram a ampliação da autonomia reflexiva e de ação de pessoas e comunidades, bem como seus espaços de bem-estar psíquico-corpo
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