Eu não penso no futuro da minha filha

Looking At The Future

Upload feito originalmente por Liel Bomberg

Me lembro que um dia uma colega de curso em Certificação em Biologia Cultural, minha querida amiga Margarita Bosch, trouxe para turma uma questão sobre a maneira como os pais de hoje em dia abordam a educação das crianças. Vivemos preocupados com o futuro do pequenos, e balizamos todas as nossas decisões a partir disto. A escola em que os matriculamos, os cursos complementares em que os engajamos e as atividades que planejamos para o dia a dia das crianças giram em torno da construção de um “futuro” para eles. Entretanto a pergunta de Margarita foi: “-O que estamos vivendo no momento presente com os nossos filhos?”

Não sei o que será da Maria Júlia. Se ela vai gostar de geografia ou matemática. Se vai falar inglês ou ser vegetariana. Ou talvez ela queira escrever muito bem, ou cantar, ou apenas cozinhar para os amigos. Não sei. Também não sei como será o mundo daqui a vinte anos, quando MJ terá vinte e quatro e estará entrando no mercado de trabalho, ou não. Não sei como serão as profissões, nem o que será esperado dos profissionais de então. Não sei nada, ou quase nada sobre o futuro. Ou se a vida escolar de Maria Júlia está adequada para o que virá!

Então porque devo colocar tanta ênfase na frequência das aulas? Ou na entrega dos trabalhos e nas notas das provas? A quem serve isto tudo? O que a escola mantém, afinal? O que garante?

Dia desses Maria Júlia, minha filha de quatro anos, disparou:

- Eu não quero mais ir prá escola!
- Porque não, filha?
- Só tem coisas chatas por lá.
- E os seus amiguinhos?
- Meus amigos são vocês. Papai, mamãe e meus irmãos. Vocês é que gostam de mim…

Então toda a espécie humana surgiu para mim! Uma espécie de cuidadores, de gente que trata seus filhotes até que eles possam caminhar e viver por si mesmos. E todos fomos tratados por alguém. Não há um ser humano vivo que não tenha sido cuidado por outro se humano vivo. Está em nós como uma predisposição biológica. Sermos cuidados é uma confiança em que todos nascemos.

E este cuidado ocorre na intimidade da convivência. No afeto cotidiano de um ninho humano que acolhe o filhote cuidando do pequeno como se cada um cuida-se de si mesmo. No carinho, no amar, na emoção do amor! Neste acoplamento humano vivemos e conservamos nosso viver.

Vamos nos coordenando pouco a pouco, todos os dias, em uma construção incremental da cultura humana que nos mantém aptos e adaptados ao meio que nos cerca. Seguimos vivendo esta adaptação constante que algum observador pode identificar como aprendizagem.

Então aprender pode parecer a coisa mais importante do viver humano, porque quando nos adaptamos e mudamos nossas condutas para nos conservar vivos enquando conservamos o meio que nos conserva vivos, alguém que nos observa poderá dizer: “-Vejam, ele aprendeu!”

Este aprendizado, em determinado momento da história de nossa civilização, deixou de acontecer no espaço de convivência dos humanos que se cuidam, que se amam, e passou a ser realizado na sala de aula, entre humanos que não se conhecem, e não se amam. Então o aprendizado apenas não ocorre, e apenas alguns conseguem memorizar o que é esperado deles, e estes são os bons alunos, e os outros são apenas desvios, falhas, problemas estatísticos de ensino e educação.

Nesta estrutura mal dimensionada de ensino, onde a aprendizagem humana não ocorre, existem outros seres humanos, chamados professores, que tem a função de fazer funcionar algo que não funciona!

Nas minhas andanças profissionais sempre tenho oportunidade de estar com professores, educadores e administradores de escolas e instituições de ensino. Em uma dessas saídas depois do trabalho, depois de alguns copos de vinho entre amigos, uma coordenadora pedagógica de uma conhecida e conceituada escola de São Paulo afirmou:

- Não tem segredo! De tempos em tempos mudamos a orientação pedagógica, ajustamos os métodos e repaginamos os conteúdos escolares mas a receita de bolo é sempre a mesma: para os pequenos, regras, e para os maiores, lições.

Ela continuou explicando que o professor se sente cada vez mais inseguro diante da classe. As crianças são cheias de vitalidade, repletas de estímulos eletrônicos, carentes da convivência com os pais e tudo isto explode na sala de aula, diante do professor. “Segurar” a classe, “conduzir” a turma, torna-se uma obsessão cotidiana que supera o desejo de ensinar. Ter as crianças à mão parece cada vez mais importante do que o processo de aprendizagem de cada um.

Nesse caos relacional que a escola se tornou, como posso, enquanto pai, acreditar que esta experiência vai trazer à minha querida Maria Júlia alguma coisa que ela deverá precisar em seu futuro?

Francamente? Ora, danem-se, hoje minha filha não vai para a escola.