Upload feito originalmente por panic-embryo
Se um suposto gramático ou professor de redação resolver visitar, ler e corrigir as postagens de diversos blogs redigidos por brasileiros, certamente encontrará uma série de erros de português. Isto porque a internet tem se apresentado, cada vez mais, como um território da língua falada, não subordinado às regras das normas cultas ensinadas nas escolas e praticadas pelos mestres da literatura.
A gramática surgiu no século III em Alexandria que, mesmo sendo uma cidade egípcia, era na época o mais importante centro da cultura Grega. Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, o Grande, ao receber o Egito como presente depois da morte de seu líder, tratou de implantar uma exuberante biblioteca com sábios estudiosos que passaram a determinar as normas de uso da língua grega para o mundo da época. Surgiu então a gramática como recurso de controle da linguagem dos dominadores gregos sobre os mais diversos povos por eles subjugados.
“- Então podemos dizer que o erro gramatical foi inventado no século III pelos sábios gregos de Alexandira, professor?”
“- Não é Alexandira, menino, é Alexandria! Escreva cem vezes esta palavra até aprender!”
Sem dúvida alguma a Gramática se tornou no decorrer dos séculos um importante patrimônio cultural do Ocidente. Foi se modificando de acordo com a evolução do falar humano mas sempre sob o estrito controle de um pequeno grupo de especialistas que determina o que é certo ou errado. A base para a estruturação da gramática surge nos livros escritos e publicados por autores consagrador, mestres no uso do idioma.
Ocorre que antes da Internet o único meio de publicação, o livro, era um objeto de produção cara e controlada. Agora praticamente qualquer um pode publicar seja-lá-o-que-for do modo que bem entender quando quiser, certo?
Então a língua falada, espontânea, desprezada pelos gramáticos por sua falta de padronização, com toda sua caótica expressão e variações de localidade e tempo, vem ganhando espaço nos blogs, chats, fóruns, redes sociais e twitadas cotidianas, e se afirmando como objeto de estudo da contemporaneidade de nossas relações.
Somente a partir do século XIX a Gramática Tradicional começou a questionar cientificamente seus próprios preconceitos através de investigações línguísticas que revelaram que tudo considerado certo era apenas o modo de escrever de um grupo de
homens livres brancos do sexo masculino, membros de uma elite econômica com direito a voto que controlavam, através de suas relações aristocráticas com a igreja, o sistema educacional da época.
Todas as diversas expressões gramaticais das mais variadas classes sociais e agrupamentos regionais foram formalmente desconsideradas por parecerem aos ouvidos dos gramáticos um linguajear feio, errado, corrompido e defeituoso. Ou seja, a maioria das pessoas está e sempre esteve à margem do bem-falar, fora do território da gramática. Refletindo sobre o caráter heterogêneo de nosso país, a variedade de nossas matrizes culturais e tradições, imaginem as consequências e extensão deste tipo de preconceito!
E por mais que a ciência da linguística tenha entendido isto nos últimos cem anos, o senso comum entre os professores e a sociedade ainda é este: qualquer pessoa pode falar, mas apenas alguns sabem falar corretamente. Alguns poucos conseguem escrever, mas somente um punhado consegue redigir adequadamente.
Talvez por isso a fala do indivíduo comum tenha ficado, até pouco tempo, restrita ao seu universo pessoal de amigos e familiares. Muitos amigos que iniciei na blogagem nunca passaram do primeiro post, e não foi por falta de conteúdo, todos eram brilhantes em suas áreas. Mas na hora de escrever, enfrentar a página branca, a maioria naufragou. Pessoas com quem tive e tenho conversas fantásticas, altamente articuladas, não se dispõem a enfrentar o limite da página em branco.
Ocorre que cada ato individual da fala, cada discurso, cada conversação, cada postagem ou twitada é um acontecimento de linguagem totalmente válido em si mesmo. A história e a cultura humana vem se construindo com atos da fala, seja um “Independência ou Morte” ou um “E aí, blz?”. O falar humano tem construído mais do que nossa cultura. Vivemos mergulhados na linguagem e percebemos o mundo através dela, ou melhor dizendo, o que percebemos no mundo, o que distinguimos como realidade, ocorre em nossa linguagem.
A recursividade de nossas conversas, o entrelaçar de nosso linguajear cotidiano, o falar humanos em nossa convivência tem conservado nosso viver nos últimos milhares de anos. Agora que estamos conseguindo conversar por outros meios, em rodas de amigos online por todo o planeta, digitando nos celulares e computadores, com certeza sentiremos uma enorme aceleração em nosso fluxo de construção cultural.
A deriva do falar escrito nos fará mais próximos, e talvez só por isso tenhamos mais uma chance de retransformar nosso mundo, tornando-o um lugar mais sustentável. Em meu sonho de hoje seremos salvos por nós mesmos, a partir de nossas longas e livres conversas, expressas em sons, letras, símbolos, avatares, fotos e vídeos.
Seremos senhores de nossa linguagem, falando sempre de modo único e individual, mas sendo compreendidos por mais e mais pessoas a cada dia. Talvez assim o mundo fique tão suficientemente pequeno que possamos até salvá-lo, e a nós mesmos. Assim espero.
* A título de curiosidade, tente encontrar o maior número possível de erros de português neste post e declare-os em um comentário, pode ser? Vamos ver o quanto este blogueiro pratica da norma culta da língua portuguesa. Divirtam-se!


Vou teimar, e não vou comentar usando a ótica dos guardiões do livro mofado :D
Com meu amigo e companheiro de trabalho na chuva, José San Martin, sempre converso bastante sobre o assunto. Isso porque ele estuda linguística, e nas conversas com ele descobri muitas coisas que raramente saem do meio acadêmico ou até das aulas e livros de linguística.
A gramática que os professores formados em letras nos ensinaram e ensinam aos nossos filhos é uma ciência ultrapassada (e velha, como reporta o post acima), que se baseia em critérios duvidosos. Muitas regras acabam tendo mais exceções do que regras, e o modo como os gramáticos pensam a língua é algo estranho.
O principal papel da língua, de comunicar, acaba sendo transformado em uma forma de restringir, padronizar e subjugar.
Apesar do vigente ser o obsoleto, os liguistas enxergam a gramática de uma forma que, apesar de não temporalmente recente, é extremamente inovadora.
Na visão de Chomsky, a gramática é a ciência de observar a língua falada e identificar padrões nela, no lugar de simplesmente compôr uma lista pitoresca de regras arbitrárias baseadas nas opiniões estéticas de alguns autores.
Uma coisa legal é que nós brasileiros alfabetizados dominamos mais de um idioma. O que aprendemos em casa não é o mesmo da escola, e isso acaba trazendo mais flexibilidade de compreensão.
Em Portugal, o idioma falado é muito mais próximo do escrito, mesmo se contando as gírias e tudo mais.
Muitas das expressões que usamos por aqui comumente, por lá são completamente incompreensíveis. Já nós temos muito mais facilidade, pois o idioma que escrevemos é muito parecido com o que eles falam.
E quem já não conversou com um falante de espanhol, entendeu quase tudo que ele falou mas não foi correspondido?
A essa verborréia toda, acrescento o pensamento final, de que realmente acredito que a apropriação da língua (ou das línguas) e da cultura fortalece nossa identidade e ajuda na desmonopolização do mundo, e aí está a chave para alcançarmos algo vital que ainda não temos (nós, o povo da Terra), que é harmonia.
O que especialmente me intriga e interessa a respeito dos novos meios para expressão do linguagear humano é o Twitter. Me parece que ele está abrindo espaço para uma manifestação mais espontânea e legítima das pessoas. Experimentamos isso no GFAL: 300 pessoas na sala, trabalhando, participando, aplaudindo. Vem a pergunta: O que estarão pensando? De verdade?
Um jeito de saber é olhar o que elas estão Twittando. Aí vemos comentários, críticas, elogios que nem imaginávamos. Abre-se um novo acesso e portanto uma nova forma de relacionamento, de possibilidade de resposta. Entre indivíduos também acontece: Chega aquela figura chateada e vc sem coragem de perguntar por que. Aí vc vê o Twitter. Pode ter uma dica de como a pessoa está se sentindo, uma mão prá você chegar nela.
Como se no Twitter a gente falasse aquilo que pessoalmente às vezes está difícil. Pode ser uma ferramenta super útil para as relações humanas.
O que vc acha?
Creio que o limite de 140 caracteres das microblogagens (twitter) facilita o fluxo de expressão dos falantes humanos. A twitada é a cpautura de uma célula de pensamento, uma unidade de emoção ou percepção que passa por nós e pode ser escrita sem grande compromisso.
Quando twitter nos faz a pargunta “O que você está fazendo?” nos convida a refletir e declarar algo sobre nossa explicação acerca do que estamos vivendo.
Trazer isto em algumas palavras, sem uma sintaxe que ligue esta twitada com nenhum antes ou depois, é muito mais fácil do que estruturar uma postagem de blog com começo, meio e fim!
Talvez por isso tenhamos a sensação de estar observando o fluir íntimo de que twitta, certo?
Algarra:
Como linguísta, só posso te dar os parabéns pelo excelente texto. Vou recomendar em meu blog,ok?
Abs,
Fátima
Seria a internet a Novíssima Gramática da Língua Falada?
Ou vai além, pois nela escreve-se diferente de como se fala, apesar de sua influência ser visível nos jovens de hoje, que levam os “blz”, “vc” e “kd” para os textos no papel?
E, pensando na última pergunta, se na internet escreve-se diferente de como se fala, ela não se assemelharia à gramática tradicional, que também prega a escrita diferente da fala rotineira?
De acordo com a nova regra ortográfica, como fica a escrita da palavra sobre-saia e porquê?